Quando narrar é o que resta


Minha curiosidade em torno de "A passagem tensa dos corpos", de Carlos de Brito e Mello, vinha de algum tempo. A temática da morte, recorrente na literatura, era prometida em uma abordagem incomum. Promessa cumprida. 

* * *

O autor deixa ver alguém da escrita com verdadeira dedicação, explorou seu criar. Nos permite pensar seu diálogo de criador (no teclado, em âmbito pessoal) com a criatura que narra, um ser sem existência definida, obcecado pela passagem dos corpos.
Anda a dar nome às mortes que testemunha em centenas de cidades mineiras.
Um cadáver que permanece, no entanto, retarda sua missão.

* * *

A história envolve (saiba mais aqui), ansiei pela cena final. E li devagar os últimos capítulos, retardando o fim. Uma boa leitura, que revela um modo interessante de ação pela língua.

* * *

(todos os sentidos da frase anterior você só entenderá lendo o livro, lamento). 

* * *

Narrar um "quando o narrar" é o que resta. Narrar; dos restos dar corpo, do fragmentado constituir vida. 

* * *

Tomo de empréstimo o texto de apresentação do blog A passagem tensa dos corpos. No blog somos tentados por um pouco mais sobre a construção do enigmático narrador.
O romance "A passagem tensa dos corpos", de Carlos de Brito e Mello, organiza-se em torno de uma família composta por um homem, designado pela letra C., sua esposa, a jovem filha e o filho recluso. A apresentação dos personagens e o desenvolvimento da narrativa ocorrem a partir de um evento específico: a morte de C. Insepulto, entretanto, ele é mantido no interior de sua casa, preso a uma cadeira na sala de jantar, participando do convívio com seus familiares. Que fabulações um corpo abatido é capaz de originar? A passagem tensa dos corpos objetiva produzir uma reflexão sobre o manejo particular da palavra convocada pela ficção. A escrita elaborada em torno de uma morte deve afetar-se pela ruína que busca apreender, fazendo da mancha sua grafia e retirando daí o conjunto de forças que sustentam sua existência e sua ressurreição.

* * *

Carlos de Brito e Mello é mineiro de BH, mestre em comunicação e professor universitário. O projeto que deu origem ao romance "A passagem tensa dos corpos" foi vencedor, em 2007, do prêmio Governo de Minas Gerais de Literatura.

Crítica no jornal Rascunho: um livro acontecimento.

Comentários