quarta-feira, 12 de maio de 2010

E o que é imaginado

A escritora Elvira Vigna, em entrevista ao jornal Rascunho, fala do novo livro, "Nada a dizer". E na pergunta número 3 ela foi questionada sobre a narrativa construída e a onipresente dúvida sobre o que há de autobiográfico:
... a narradora deixa alguns sinais de que se equilibra na fronteira entre realidade e ficção. Esta aproximação a preocupa? A senhora acredita na existência dessa dicotomia ou na possibilidade de sua ficção construir uma nova realidade?
Vou responder com uma citação em que tropecei faz pouco: "Então, o que é autobiográfico nas minhas histórias, e o que é imaginado? Tudo é autobiográfico: se um dia eu escrever uma história sobre o caso de amor entre madre Teresa e Abba Eban, com certeza vai ser uma história autobiográfica, não há história que não seja confessional. O mau leitor quer sempre saber, e rápido, ‘o que aconteceu na realidade'. (...) A satisfação do mau leitor depende de ele ter a certeza de que sobre Dostoiévski pesava a suspeita de uma mórbida tendência a assaltar e matar velhinhas, e de que William Faulkner, sem dúvida, era inclinado ao incesto; Nabokov, à sedução de menores; Kafka, com certeza, tinha uma alentada folha corrida na polícia (pois não há fumaça sem fogo); para não falar no que o tal Sófocles fez ao pai e à própria mãe, pois, se não tivesse feito, como é que ele saberia descrever com tanta perfeição? E que perfeição! Perfeição é apelido - mais perfeito que a realidade! Então não pergunte: O que é isso? São fatos reais? De verdade? Pergunte a si mesmo. Sobre você. E a resposta, pode guardar para si. Faça a comparação (cujo resultado você poderá manter em segredo) não entre o personagem da história e os diversos acontecimentos da vida do autor, mas entre o personagem da história e você, o seu eu secreto, perigoso, infeliz, louco, criminoso, o ser ameaçador que você mantém sempre bem preso, bem no fundo, dentro de sua masmorra mais tenebrosa para que ninguém no mundo jamais suspeite de sua existência". É do Amós Oz, em De amor e trevas (em tradução de Milton Lando para a Companhia das Letras).

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