segunda-feira, 14 de maio de 2012

Finalmente escapar

Eliane Brum, em sua coluna semanal no site da revista Época:

"O que sou eu? Talvez o olhar terno para as duas escovas de dentes que repousam num copo de plástico na pia do hotel. Ou a revolta com a espinha que irrompeu no lábio superior bem no dia de minha apresentação pública. Ou o que escapa de mim nas histórias dos outros que conto. Sou muito mais o que não está contado de mim, o que escoa com as horas sem deixar rastro, do que aquilo que se sabe de mim. 

E talvez essa seja a grandeza do momento histórico que vivemos, em que todos se narram por segundo. Se os hieróglifos do mundo antigo revelavam o mesmo desejo de permanência que a polifonia sem hierarquia das redes sociais de hoje, penso que agora estamos mais perto de nossa verdade mais profunda. Essa memória na nuvem, ainda mais imaterial do que nosso corpo condenado a desaparecer, esse nada que resta de nossa passagem fugaz pelo mundo, é apenas isso: a nossa tragédia sem museu. Finalmente, sem museu."

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