2. alice não veio aqui a passeio

Dois excertos de Retrato de um tempo à meia-luz, de Jaime Medeiros Júnior (Porto Alegre: Modelo de Nuvem, 2012). As crônicas, seus percursos de leitura e anotações nos permitem dobrar o agradável das horas.

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"No Ocidente o pragmático impôs ao contingente um método, um método que nos ensinou a descrer, método que, por fim, culminou no advento do nada e que nos obrigou a uma total desvitalização das coisas do mundo. Aqui, o método nasce do logos, subjuga o mundo e o dispõe em alternativas antagônicas, que só  se tornarão válidas na medida em que já estiverem previstas nos princípios. A razão, contudo, não consegue nos conduzir para além de si. O outro está perdido, acabando por ficarmos apenas com o que dele se diz.

No Oriente, contudo, havemos também de nos deparar com o pragmático, mas lá ele não tomou o bonde do logos. Ali o método é, em sua inteireza, o se acercar da realidade, a sua atitude não é desconfiada. Rondamos aquilo posto ao centro. Sabemos que ali há um outro, que não poderá ser reduzido a um conceito, a uma palavra. Nos deparamos com o todo, com o símbolo, com o vazio. E cabe dizer: o vazio, diferente do nada, é um encontro, porque estamos diante do outro, afetuosamente acolhido e limpo de nossos conteitos" (p. 110).

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"Mas nada disso haveria de nos acontecer se não fora este istozinho que está para além de nós. Os teus signos e a esperança nada seriam se a pergunta não te fosse arrojada à face. Se não fôssemos tomados pelo susto. Pois Alice não veio aqui a passeio. E não há nada de absurdo no absurdo que nos cerca. E no fim, e no meio e no princípio de tudo, bem lá do alto do seu cogumelo, sempre resta uma lagarta a nos perguntar: quem é você?" (p. 143)

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