quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

3. a leitura é verdadeiramente uma produção

No texto Da Ciência à Literatura, incluído em Rumor da Língua, Barthes defende a escrita e a leitura como propulsoras/libertadoras mútuas, em relação. O comentário vem depois de um trecho (p.39) do escritor Roger Laporte:
"Uma pura leitura que não suscite uma outra escritura é para mim algo incompreensível... A leitura de Proust, de Blanchot, de Kafka, de Artaud não me deu vontade de escrever a respeito desses autores (tampouco, acrescento, como eles), mas de escrever".
E segue Barthes (p. 40):
"Nessa perspectiva a leitura é verdadeiramente uma produção: não mais de imagens interiores, de projeções, de fantasias, mas, literalmente, de trabalho: o produto (consumido) é devolvido em produção, em promessa, em desejo de produção, e a cadeia de desejos começa a desenrolar-se, cada leitura valendo pela escritura que gera, até o infinito. Esse prazer de produção é elitista, reservado aos escritores virtuais? Tudo, na nossa sociedade, sociedade de consumo, e não de produção, sociedade do ler, do ver e do ouvir, e não sociedade do escrever, do olhar e escutar, tudo é feito para bloquear a resposta: os amantes de escritura ficam dispersos, clandestinos, esmagados por mil restrições, interiores, até. 
Isso é um problema de civilização: mas, para mim, tenho a convicção profunda e constante de que nunca será possível libertar a leitura se, com um mesmo movimento, não libertarmos a escritura".

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Uma conversa entre os escritores portugueses Gonçalo M. Tavares e Lobo Antunes sobre criação e escrita literária. Aqui.

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Gonçalo M. Tavares: "É exactamente isso: escrever sem saber para onde é que se está a ir".

(Post de maio de 2010).

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